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Radiografia de coluna no admissional: por que evitar

Achado radiológico em coluna assintomática barra candidatos sem dizer nada sobre capacidade funcional; evidência da ACOEM e Cochrane reforça o caminho funcional.

Lucas Melo

Ortopedista, MD-PhD — CEO e co-fundador da Straloo

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Caso real: precisa de radiografia de coluna no admissional e/ou periódico?

Parece uma boa ideia. Na prática, pode criar mais problema do que resolver.

Conversei semana passada com um médico do trabalho e ele me trouxe um caso real: candidato barrado no processo admissional por causa de um osteófito lombar incidental.

Paciente assintomático, com função completamente preservada e sem história de dor.

O RH cobrando prazo, só que o processo ficou travado. O candidato acabou não sendo admitido.

Tudo por um achado de imagem que, isolado, não diz nada sobre capacidade funcional.

Isso acontece com frequência. E tem base técnica sólida para mudar.

A ACOEM (American College of Occupational and Environmental Medicine — uma das principais referências em medicina ocupacional dos EUA) publicou um guideline específico sobre diagnóstico na lombalgia. A orientação é direta: raio-X lombar não está recomendado na ausência de sinais de alerta clínicos.

O motivo é simples. Degeneração em coluna lombar está presente em até 54% das pessoas completamente assintomáticas, com forte correlação com idade e hereditariedade, e sem correlação comprovada com capacidade funcional.

A pergunta que o guideline propõe antes de qualquer exame de imagem é essa: "o que farei com esse resultado?" Se a resposta não mudar a conduta, o exame não está indicado.

A revisão Cochrane de 2016 sobre exames admissionais vai na mesma direção. Após analisar 11 estudos com quase 8.000 trabalhadores, o único efeito consistente identificado pelo uso de exames gerais inespecíficos foi o aumento da taxa de rejeição de candidatos, de 2% para até 35% em alguns estudos.

Os próprios autores classificaram isso como desfecho adverso. Redução de lesões musculoesqueléticas? Sem evidência.

E o guideline mais recente da ACOEM para avaliação inicial em medicina ocupacional, de 2026, estrutura a abordagem de distúrbios osteomusculares em torno de três eixos: função, demandas do posto e fatores individuais.

Imagem não aparece como componente recomendado em nenhum momento.

O que de fato protege o trabalhador e a empresa é uma avaliação funcional centrada no posto que aquela pessoa vai ocupar.

Quais são as demandas físicas reais da função?

O candidato consegue exercê-las com segurança?

Há restrições que precisam de adaptação?

Um achado radiológico em coluna assintomática não responde a nenhuma dessas perguntas. Uma avaliação funcional bem conduzida responde às três.

A diferença entre um exame admissional que gera segurança e um que gera apenas aumento na taxa de rejeição está exatamente aí.

Precisamos parar de tratar laudos de imagem e começarmos a avaliar e tratar as pessoas.