RM de ombro em assintomáticos: o que diz o JAMA 2026
Estudo FIMAGE no JAMA Internal Medicine mostra alterações de manguito rotador em 98,7% dos exames e reforça que achado de imagem não é sinônimo de doença.
Lucas Melo
Ortopedista, MD-PhD — CEO e co-fundador da Straloo
Caso real discutido com uma médica do trabalho semana passada.
Colaborador de 58 anos, dor súbita no ombro após esforço, foi ao PS, fez medicação e uma ressonância. Boa resposta ao tratamento inicial.
(Caso ainda em investigação quando escrevi o post.)
Mas já adiantei para ela: "pode esperar que esse exame vai vir com alteração."
A dúvida é: será que esta alteração tem correlação clínica?
E aproveitei para revisar a literatura.
Saiu em 2026 no JAMA Internal Medicine um estudo epidemiológico finlandês chamado FIMAGE.
Metodologia relevante: 602 participantes entre 41 e 76 anos, ressonância bilateral de 3 Tesla, e recrutamento feito independentemente de sintomas.
Muitos participantes eram assintomáticos e fizeram o exame mesmo assim. Esse detalhe importa muito para interpretar os dados.
O que encontraram:
98,7% apresentaram pelo menos uma alteração no manguito rotador
62% com lesão parcial, 25% com tendinopatia, 11% com lesão total
Apenas 1,3% tinha ombro normal no exame
Alterações estavam presentes em 96% dos ombros assintomáticos e 98% dos sintomáticos
Tendinopatia e lesão parcial ocorreram com frequência igual nos dois grupos
Mesmo com RM de 3T e avaliação por especialistas experientes, não foi possível distinguir achados clinicamente significativos de achados incidentais
O dado que mais importa para quem trabalha com saúde ocupacional: em pessoas acima de 50 anos, a probabilidade pré-teste de alteração no manguito rotador se aproxima de 100%.
Isso significa que a presença da alteração, por si só, tem valor diagnóstico limitado. A pergunta deixa de ser "tem alteração?" e passa a ser "essa alteração explica o quadro clínico?"
No contexto ocupacional isso se torna ainda mais complexo. Se quase todo trabalhador acima de 40 anos já tem alguma alteração estrutural no ombro, correlacionar esse achado de imagem com nexo ao trabalho exige muito mais do que o laudo radiológico.
Correlação clínico-radiológica não é opcional. É o que separa uma conduta responsável de uma cascata diagnóstica e terapêutica desnecessária.
E faz parte do nosso papel como profissionais de saúde deixar claro para o paciente: o que aparece no exame não é necessariamente doença, e muito menos indica cirurgia.
O próprio estudo recomenda revisar a terminologia usada nos laudos. Palavras como "ruptura" e "lesão" carregam uma carga semântica que gera ansiedade e pode induzir intervenções sem indicação real.
Você costuma receber laudos de ombro com linguagem que assusta mais do que orienta? O que fazer com isso na prática?