Dor e psicossocial2 min de leitura

Dor e fatores psicossociais: duas faces da mesma moeda

Meta-análise no JOSPT mostra que o perfil psicológico da tendinopatia difere da lombalgia, e que cada condição precisa de matriz integrada própria.

Lucas Melo

Ortopedista, MD-PhD — CEO e co-fundador da Straloo

Ver post original no LinkedIn

Mais um da série: "dor e fatores psicossociais são duas faces da mesma moeda?"

O Denis Vieira Lima me indicou esse artigo recentemente e achei que valia compartilhar.

Mest et al. publicaram em dezembro de 2025 no JOSPT uma revisão sistemática com meta-análise comparando o perfil psicológico de pessoas com tendinopatia persistente versus pessoas sem tendinopatia.

21 estudos. 2.176 participantes. 8 meta-análises.

Os principais achados:

Catastrofização da dor foi maior no grupo com tendinopatia

Depressão e ansiedade foram mais prevalentes, mas só nas tendinopatias de membro inferior

Cinesiofobia, autoeficácia e extroversão não diferiram entre os grupos

Sim, a relação existe.

Mas o ponto mais interessante do estudo não é o que foi encontrado. É o que não foi encontrado — e o que isso significa.

Cinesiofobia não diferiu entre os grupos. Isso contradiz diretamente o modelo fear-avoidance ("evitação por medo da dor"), que é a base teórica usada para tratar dor lombar crônica e osteoartrite de joelho com abordagens cognitivo-comportamentais.

Os próprios autores concluem que essas abordagens, eficazes na lombalgia e na artrose, podem não se aplicar diretamente à tendinopatia.

Ou seja: o perfil psicológico da tendinopatia é diferente do perfil das dores crônicas axiais e articulares.

Isso importa na prática.

Quando tratamos tendinopatia com o mesmo protocolo cognitivo-comportamental da lombalgia, estamos assumindo uma equivalência que os dados não sustentam.

Cada condição osteomuscular tem sua própria matriz de risco clínico e psicossocial.

E cada vez mais fica claro que dor e fatores psicossociais precisam ser avaliados dentro da mesma estrutura de avaliação, não em silos separados.

Não como saúde mental de um lado e ortopedia do outro. Como uma matriz integrada de risco funcional.